Após confrontos armados, facções duelam no rap e exaltam “noite histórica na Valéria”; ouça

Nos últimos meses, os moradores do bairro de Valéria, em Salvador, vivem, com ainda mais intensidade, o terror de estarem em uma região dominada por criminosos. Os diversos tiroteios entre facções rivais – Katiara, que tem forte atuação no local, e BDM (Bonde do Maluco), – em disputa pelo domínio do tráfico de drogas, tem resultado em casas alvejadas e prejuízo em serviços públicos, a exemplo da circulação de ônibus, que ficou suspensa por vários dias devido à violência.

Mas, os confrontos entre os grupos criminosos foram além da troca de tiros e ameaças. Um dos novos métodos dos rivais se afrontarem agora é a música. Semelhante ao que já é comum nas favelas do Rio de Janeiro, onde muitos funks são usados para fazer apologia ao crime, na capital baiana, a arte e rimas tradicionais do rap estão sendo utilizadas para troca de ofensas, insultos, xingamentos e tentativas de amendrontar os inimigos.

Após os últimos conflitos envolvendo as facções, na região de Valéria, a reportagem do BNews teve acesso a músicas, divulgadas publicamente através do YouTube, fazendo referências a ambos os grupos. Nas rimas do trap (subgênero do rap que se originou na década de 2000), os ‘cantores’ narram episódios ocorridos na ótica de cada bando, exaltam chefes e expõem por meio dos versos o poder de fogo.

Os vídeos que trazem a descrição de ‘Noite histórica na Valéria – Katiara vs BDM’, foram divulgados no mesmo dia – 3 de junho -, no canal FDB da Maloka, plataforma conhecida por publitizar áudios, fotos, imagens e músicas associadas ao crime organizado de Salvador. As ‘produções’ intituladas como ‘KATIARA AFRONTANDO O BDM’ e ‘BDM AFRONTANDO A KATIARA’ contam com cerca de 5 mil visualizações cada.


As produções, inclusive, foram bastante elogiadas por internautas através dos comentários na plataforma. “Esse cara da música tem talento ficar nessa vida”, comentou um. “O cara poderia investir no trap, ter sucesso, fama e dinheiro. Mas prefere ficar no crime”, postou outro. “Independente da letra ficou massa a batida”, destacou mais um.

Vale destacar que, apesar da riqueza de detalhes e demonstração de notório conhecimento das ações criminosas, não há confirmação se os cantores integram as facções.

A reportagem do BNews procurou as polícias Civil e Militar, questionando a existência de uma investigação e/ou operação no intuito de coibir os tipos de ações, que fazem apologia pública ao crime. Em nota, a PM informou que “além do policiamento de rotina do bairro de Valéria, o serviço segue reforçado com guarnições da Companhia Independente de Policiamento Tático (CIPT) Rondesp Central e do Comando de Policiamento Especializado (CPE)”. Segundo a coorporação, “para informações sobre as disputas entre os criminosos, sugerimos que entre em contato com a assessoria da Polícia Civil, órgão responsável por investigações”.

Em contato com o BNews, a Polícia Civil esclareceu que “o Departamento de Repressão e Combate ao Crime Organizado (Draco) investiga ações de grupos criminosos, bem como associação, incitação e apologia ao crime”, e destacou a importância da população para denunciar práticas criminosas. “A população pode colaborar denunciando, sem precisar se identificar, por meio do Disque Denúncia da Secretaria da Segurança Pública (SSP-BA), no 181”.